04/02/2009

Carnaval de Itabuna no Passado

Cyro de Mattos

O começo da história do carnaval em Itabuna remonta o ano de 1908, quando era conhecido como “Domingo do Entrudo”, numa época em que a cidade não tinha ruas calçadas. Naqueles idos da festa de maior expressão popular na cidade, jovens saíam às ruas logo cedo, mascarados ou de cara suja, carregando uma enorme seringa de bambu que esguichava jatos d’água nos foliões ou pessoas que passavam. Acontecia também que os jovens, rapazes ou moças, jogassem de surpresa talco no rosto ou cabelo das pessoas, causando muito susto, vexame e correr-corre.

Contam os mais velhos que essas brincadeiras aconteciam sempre pela manhã na Rua do Comércio e eram conhecidas como “molhação” ou “melação”, sendo que, à tarde, grupos, em trajes domingueiros vistosos, molhavam uns aos outros, jogando laranjinhas de cera que se partiam ao atingir o alvo, assustando as pessoas e refrescando-as com água perfumada.

Em seu “Documentário Histórico e Ilustrado de Itabuna”, José Dantas de Andrade anota que os blocos com mascarados e cordões começaram a surgir em 1912, e já nessa época vão aparecer as primeiras ruas calçadas, contribuindo assim para que o Carnaval fosse mais animado no centro da cidade. Entre os primeiros blocos que merecem registro nesse período, que vai de 1919 a 1927, estão “Filhos do Sol”, “Os Inocentes”, “As Japonesas”, “Os Encantados” e “As Falenas”..

Com a chegada dos primeiros automóveis, em 1927, surgiram no carnaval itabunense as tradicionais “pranchinhas”, quando então ocorria na Rua do Comércio o desfile dos carros alegóricos ante olhos curiosos das pessoas que se comprimiam nos passeios e batiam muita palma para o séqüito que passava deslumbrante. Nesse tempo, surgem outros blocos que ficaram famosos no Carnaval em Itabuna, como “Vai Nada”, ”Salta pra Trás”, “Aviadores”, “Damas ao Centro”, “Borboletas”, “Fique Morno”, “Mangangá” e “Corta-Jaca”.

Em 1929, as batucadas e afoxés passaram a animar o Carnaval em Itabuna. As escolas de samba dos bairros populares começaram a aparecer de uns 45 anos para cá, ficando no lugar das batucadas, mas até hoje permanecem muito tímidas quanto à sua organização social e no próprio desfile, pois lhes falta, principalmente, um “espírito de corpo” que reúna sentimentos de ordem histórica, antropológica e social em torno do agrupamento e que se faça refletir em sua identidade psicossocial na época carnavalesca.

Os afoxés acham-se até o momento como a manifestação mais tradicional do carnaval itabunense. Com seus cantos de origem africana, baianas e figuras que simbolizam divindades, os afoxés precisam de apoio dos poderes oficiais para que possam se organizar de maneira mais abrangente e revelar no desfile valores autênticos da cultura afro-portuguesa.

Entre os blocos, um iria ter na folia destaque especial, o “Maria Rosa”. Integrado por rapazes do comércio local, usando vestido de chita, laço de fita no cabelo, calçando tamanco, o bloco “Maria Rosa” foi responsável, nos anos de 1935 a l939, pelos carnavais mais animados da cidade. Desfeito o bloco para a tristeza dos foliões inconformados, o “Maria Rosa” iria ressurgir somente 30 anos depois, com a garra e animação de sempre, dessa vez integrado de rapazes que pertenciam aos setores mais representativos da sociedade.

No período que vai de 1908 até 1940, a sátira e a crítica irreverente eram usadas comumente no carnaval de Itabuna. Blocos e cordões aproveitavam um fato político, econômico, social ou esportivo, que tivesse repercussão durante o ano, e faziam disso assunto engraçado ou pretexto jocoso para dessa forma animar o Carnaval. “Batalhão Patriótico” e “Enterro da Liga”, por exemplo, são lembrado até hoje como quadros perfeitos de humor e riso no Carnaval itabunense.

Como se vê, os traços característicos do carnaval itabunense, no passado, estavam no espírito alegre dos foliões, voltado para as brincadeiras leves e em uma grande ingenuidade das fantasias dentro dos quadros satíricos. Os bailes carnavalescos aconteciam no Cine Odeon ou nos grandes armazéns de cacau – ainda não existiam, até 1940, clubes na cidade.

Com a inauguração do Itabuna Clube, nos idos de 1940, a fase dos bailes carnavalescos iria ter início durante quatro noites e duas matinês, com os salões do clube acolhendo foliões adultos e pequenos. Paralelamente ao carnaval de rua, a folia agora passaria a contagiar, nos clubes, blocos formados por senhores sisudos e senhoras da elite, que, dando voltas contínuas no salão, não paravam de cantar com entusiasmo as marchinhas “Pirata da Perna de Pau”, “Linda Lourinha”, “As Pastorinhas”, “Touradas em Madri”, “Alá-lá-ô” e tantas outras que ficaram consagradas em nosso cancioneiro popular. Esse carnaval em Itabuna era do tempo da serpentina no ar, muito confete e lança-perfume só para alegrar.. Era o carnaval da musa colombina, do pierrô apaixonado, arlequim sonhador e palhaços que não paravam de pular.

Inaugurado em 21 de agosto de 1946, o Grapiúna Tênis Clube iria oferecer bailes carnavalescos memoráveis. Conhecido em sua fase áurea como “o aristocrático”, o Grapiúna iria suplantar durante anos o seu tradicional rival, o Itabuna Clube, com decorações primorosas de seus salões feitas por artistas locais e tendo como ponto mais importante dos bailes carnavalescos o concurso de fantasias, que, em brilho, esplendor e originalidade, competia no gênero com os clubes da capital.

Já vai longe o tempo em que o carnaval em Itabuna começava cedo, aos sábados, quando o Zé Pereira”, um homem vestindo roupas pobres e tocando o bumbo com meninos afoitos atrás, ia de porta em porta fechar os estabelecimentos comerciais, porque logo mais a folia iria começar a contagiar a cidade. Sintonizada com a era eletrônica, há quase meio século, Itabuna vem promovendo de uns anos para cá um Carnaval de ritmos frenéticos e sensuais, com grandes multidões pulando e dançando atrás do trio elétrico. É o Carnaval, como em quase toda a Bahia, “trieletrizado”. E atrás do trio elétrico, como diz Cateano Veloso, só não vai quem já morreu.

A Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania promoveu neste ano o Carnaval Cultural, buscando reviver a folia no tempo em que acontecia com seus elementos reais de psicologia coletiva motivados pela história, ritmos, disfarces, alegorias, cantigas e canções postas em circulação na época. Nessa viagem feita de ingenuidade, prazer e alegria, abraçou o projeto da atriz Eva Lima, levou ao conhecimento dos que foram assistir e brincar na festa de como a cidade eliminava a repressão e enriquecia a vida naquele tempo.

O primeiro carnaval cultural de Itabuna teve início com a lavagem do Beco do Fuxico, no dia 5 de fevereiro, às 18 horas, pelos componentes do bloco “Casados I...Responsáveis”. Contou com a participação animada do Prefeito José Nilton Azevedo, que, após entregar a chave da cidade ao Rei Momo, subiu no carro-pipa para com uma mangueira molhar os foliões, que não paravam de pular e cantar, numa onda de alegria nunca vista no festejo.

3 comentários:

  1. Muito obrigado, me ajudou muito com meu trabalho de escola :)

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  2. Também fiz meu trabalho de escola

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  3. Beatriz TeixeiraFeb 11, 2010 03:08 PM

    Foi de grande ajuda para o meu conhecimento e para o meu trabalho de escola.

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